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quarta-feira, 26 de novembro de 2014

O "Tambozão tá rolando"!


Atabacão – a criação do tamborzão

O tamborzão tem uma origem nada exata e controversa, assim como toda história do funk. Antes, a maioria dos funkeiros credita ao DJ, produtor e ex-locutor Luciano Oliveira a batida que primeiramente foi chamada de “atabacão”. DJ Luciano na sua pesquisa como fomentador de referências e criações pro funk, começou a testar instrumentos de percussão no funk, até que achou em sua bateria eletrônica modelo R-8 sons que simulavam atabaques graves. Dentro desse mesmo processo de pesquisa, Luciano também aumentou o andamento (velocidade) das músicas: de 124 para 129 batimentos por minuto (bpm).
Luciano não tem guardado o primeiro registro da batida – ele sequer imaginava que seu experimento daria certo – mas conta que Tito e Xandão, com a música “Rap do Comari” (produzido por Luciano), foi a primeira música a usar a nova batida. A música não estourou, mas depois todo mundo começou a usar a base dela. Luciano acredita que a quantidade maior de contratempos faz as pessoas que ouvem querer dançar.

Tamborzão nasce na CDD
Na Cidade de Deus, a batida ganhou seu nome “oficial”. No “Festival de Galeras do Coroados”, os MC’s, improvisando, sentiram a percussão e improvisaram chamando a batida de “tamborzão”. O que na real se ouve é a palavra “tambozão”, no sotaque carioca. Bonde do Vinho, Deise Tigrona, e Tati Quebra Barraco participaram do festival e usaram da batida. Depois disso, ninguém parou de usar e modificá-la.
O “tamborzão” tem elementos da música de raíz negra afro-brasileira: atabaques, berimbau, congas. Misturado com isso, outros elementos de baterias eletrônicas (caixas, pratos, por exemplo) apareceram na nova batida. O DJ Sany Pitbull é reconhecido no Brasil e no exterior, com 20 turnês estrangeiras, é afirma que “com o tamborzão a África falou mais alto”. Com a batida, o processo de criação do funk mudou: os DJs usam de samplers, timbres e elementos musicais variados, segundo DJ Luciano. As “montagens” (termo que no funk é um “estilo” de uso de um ou mais sampler, com diversas frases de outras músicas inseridas como nesse exemplo aqui.
O acesso à tecnologia mais popular a partir de metade da primeira década dos anos 2000 e a proibição dos bailes funk no final dos anos 90 em clubes – por conta das constantes brigas e dos próprios bailes de briga – geraram uma mudança até na temática dos funks. Os MC’s passaram a narrar o cotidiano das favelas, a produção aumenta quantitativamente de forma significante e o funk se popularizou muito.

O funk sofria preconceito dos críticos musicais por ser cópia, hoje é considerado a vanguarda da música eletrônica brasileira e teve sua alforria. Caetano Veloso e Edu Krieger são só 2 exemplos dos que já usaram da estética e linguagem do funk em seus trabalhos.  

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

oS funkS



A partir das novas composições criadas em cima das bases dos DJ’s no Rio de Janeiro, das músicas cantadas em português pelos favelados cariocas, da consolidação da cena funk como uma cena criticadora da elite branca, do aumento do poder de tráfico de drogas na cidade do Rio de Janeiro durante os anos 90 e 2000, o funk também começa a criar suas letras mais densas e críticas. Nesse modelo de construção de identidade nada una e totalmente colaborativa, o funk carioca – um gênero com diversas ramificações – vem criando, recriando, se aproveitando e sendo aproveitado por diversos gêneros musicais. Para este blog, a matéria a seguir é um resumo-reflexão para entendermos a origem do funk carioca e sua mise-en-scène e uma provocação para o nosso “estudo” do proibidão.

Funk, a história do começo
Na década de ’70 os jovens cariocas começaram a escutar um novo tipo de música estrangeira - ofunk & soul music. A influência americana no Brasil, era grande e se dava através da disseminação da cultura estadunidense nas rádios e Tv’s brasileiras. O Rio de Janeiro já era uma das cidades referência de cultura nacional e alvo do mercado fonográfico interno e externo, um semi-paraíso para a juventude sedenta por diversificação musical. O groove de James Brown, do Afrika Bambaataa e outros hitmakers da música negra norte americana começaram a ser reproduzidos num restaurante entre Botafogo e Urca: o Canecão.
Depois de uma temporada produzida pelos DJ’s Big Boy e Ademir Lemos, os “dinossauros” do FunkCarioca, o ritmo americano já tinha virado febre no Rio. Os bailes de música que aconteciam nos domingos, depois do horário de almoço do Canecão, contavam com um sistema de som razoavelmente bom e o setlist era dividido com alguns rock’n’rolls da época, como Beatles e Jimmi Hendrix. O antropólogo Hermano Vianna, escritor da dissertação de mestrado e livro “O Baile Funkcarioca: Festas e estilos de vida metropolitanos” lançado em 1987 (disponibilizado pelo autor emhttp://www.overmundo.com.br/banco/o-baile-funk-carioca-hermano-vianna) afirma que “Os “bailes da pesada” [como eram chamadas as festas do Canecão] tinham mais ou menos 5mil pessoas de tudo quanto era lugar, Zona Sul, Zona Norte, todo mundo ia”.
Depois de uma mudança de postura da gerência da casa, a festa saiu do até então restaurante Canecão e foi diluída por todos os cantos da cidade. Quem gostava de rock promovia bailes de rock, os bailes de cocota, geralmente dos brancos. Quem gostava de funk, promovia os bailes black. Após alguns anos a onda disco invadiu a cidade e foi integrado ao movimento de produção de bailes de música. O estilo foi tão contagiante que trouxe de volta a mistura dos cocotas e dos blacks para um mesmo baile, influenciando também a música, que no fim dos anos 80 já era bem mais rápida e contagiante.
O Miami Bass, estilo norte-americano de Miami, também influenciou muito o funk carioca. A batida mais rápida do hip-hop de Miami, abriu portas para uma criação de uma identidade local do Rio de Janeiro.  No documentário do Doc Mix – A história do funk carioca – da Mix TV (disponível emhttps://www.youtube.com/watch?v=xaZNWzKiO7U) o MC Marlboro comenta que o hip-hop de Nova Iorque influenciava o som de São Paulo, o de Miami, uma cidade de praia e muita festa, influenciava o Rio de Janeiro.
O movimento funk começou a atingir proporções muito grandes, o que facilitou a sua independência dos selos tradicionais e uma consequente auto-gestão de cada “equipe de som” que promovia os bailes pela cidade. A Furacão 2000, a Big Mix e a Cash Box, são consideradas as mais importantes do cenário, mas o Rio já chegou a ter mais de 500 equipes em ação.
A disputa entre quem tinha o melhor equipamento de luz e de som, baile mais animado, em mais lugares diferentes, culminou numa profissionalização do funk no Rio de Janeiro. Ramificações do gênero funk são comuns e o funk é um gênero amplamente mutável e aberto à qualquer influência. As “montagens” são mashup’s de partes de músicas que parecem aleatórias, mas que formam um novo mosaico sonoro com alguma das batidas de funk. Essas trilhas-mosaicos são criadas desde o começo do funk pelos DJ’s brasileiros. “O mix de músicas e influências são a marca do gênero” diz Lucas Gralato, percussionista e bacharel em violão pela UFRJ.
Nos anos 90, o Charme se consolidou como a primeira dissidência do Funk. Criador dos primeiros “passinhos” (coreografia do funk), o estilo musical lançou artistas como Latino e inspira hoje funkeiros como Naldo Benny e Anitta, mas o estilo não se alastrou pelo Brasil como o Funk mais agitado dos bailes. Outra dissidência dos bailes que surgiu no fim dos anos 80 são os bailes de corredor. Considerado por alguns funkeiros como uma “fase negra” dos bailes funk, os também chamados bailes de porrada, eram promovidos em clubes espalhados pelo Rio de Janeiro inteiro. A violência era esperada pela produção, que separava com uma corda o lado A e o lado B, formando um corredor de briga entre os 2 lados. O DJ Sanny Pitbull compara que esses bailes serviam como esporte e válvula de escape para jovens, assim como o MMA serve para algumas pessoas hoje. Segundo ele existia o momento do baile e o momento da briga. Era um momento de auto-afirmação de jovens que não tinham o menor espaço social na cidade do Rio de Janeiro e que logo em seguida, viriam a ser a geração de novos compositores do funk carioca, como MC Cidinho, MC Doca, MC Gorilla e MC Preto.